Desde pequenininho sempre tive um amor enorme por animais, inclusive insetos. Relutava em matar moscas ou baratas, ajudava cães abandonados na rua livrando-os da “Carrocinha da Prefeitura”, alimentava gatos dos vizinhos, tive porquinho da índia, cágado, hamsters (aqueles que ficam brincando numa rodinha giratória), mas o mais excêntrico de todos foi o “Tilico”.

Não muito distante de onde eu morava, existia uma granja e fiquei sabendo que eles botavam no lixo pintinhos machos, sem não antes torcerem seus pescoços. Sempre que voltava do colégio, saltava do bonde um ponto antes e visitava o latão de lixo da granja. Lá estavam eles às dezenas, mortos após um simples sopro entre as patinhas que os identificasse como não fêmeas.

Isso repetiu-se durante semanas, até que um dia eu vi no latão um pintinho vivo! Ele estava se mexendo!!! Apanhei-o como quem rouba um anel de diamantes e corri, corri com a pasta batendo em minha costas como que a empurrar-me, incitando-me a um galope desenfreado até adentrar em casa.

Mamãe, preciso ir na venda do “Seu Carlos” comprar farelo e milho picado. Olha o que eu achei! Esvaziei uma caixa de sapatos e com um conta gotas, dei um pouco de água ao “Tilico” goela abaixo. Deixei-o aos cuidados da mamãe e fui comprar a ração para ele. Tudo fiz correndo, de uniforme do colégio; apenas me desvencilhei da pesada pasta nas costas.

Uma lâmpada acesa próxima à caixa de sapatos dava ao meu adotado o calor suficiente como as asas de sua mamãe. Ele beliscava o farelo e os pedacinhos do milho picado. Chorei de alegria. Estava salvo o meu mais novo “bichinho de estimação”. Dormiu no meu quarto com a lâmpada acesa.

Por sorte, dia seguinte era um sábado e não tive aula. Dediquei tempo integral ao meu amado pintainho. Retirei-o da caixa e deixei que passeasse pela sala, tendo cuidado para minha cadela não querer comê-lo. Dias depois já estavam amigos e “Diana” até deixava-o encostar-se nela quando estivesse deitada. Papai aprovou a minha mais nova adoção e eu estava feliz! Ele até trazia diariamente do moinho em que trabalhava, uma caixa de clipes cheia de insetos que lá infestavam os sacos de milho.

“Tilico” já reconhecia a voz do papai quando chegava do trabalho e ia correndo ao seu encontro para comer os carunchos trazidos especialmente para ele. Os insetos, uma vez com a caixa aberta, começavam a se espalhar e o “Tilico” não deixava escapar um, ficando com seu papo estufado. Era uma farra!

Ele cresceu e já era um frango da raça Legorne. Um dia voou para cima do muro divisório com a casa vizinha e eu atraí-o de volta espalhando milho no quintal. Quando papai chegou do trabalho, disse-me que teria que cortar um pouco das penas da asa esquerda para impedi-lo de novas travessuras.

― Papai, ele vai sentir alguma dor?

― Não, é só as pontas das penas para desequilibrá-lo, caso queira voar novamente.

Em pouco tempo tornou-se um belo galo e, aos domingos, nós o levávamos à Quinta da Boa Vista (morávamos pertinho dela) para brincar no gramado. Aí aconteceu o que mudou o destino do “Tilico”. Logo ao clarear ele começava a cantar “cócóricóóóó!!!” e os vizinhos (morávamos em uma vila com casas juntinhas, umas das outras) sutilmente reclamavam do “importuno despertador”. Desesperado eu o trancava no banheiro da empregada, mas o canto dele ultrapassava as barreiras do som. Colocava esparadrapo na ponta do bico quando ia dormir, mas assim que retirava o “cala a boca” pela manhã, antes de ir para o colégio, ele desandava a cantar.

Papai me convenceu a dar o “Tilico” para um fazendeiro que comprava ração para o gado, lá no moinho. Quando chegou o derradeiro dia, eu mesmo levei meu galinho e entreguei-o (chorando) ao “Seu Valadão”, fazendo-o jurar que não iria matá-lo.

― Pode ficar sossegado menino. Ele vai adorar ficar num galinheiro cheio de galinhas para “cobrir”.

Não entendi muito bem e perguntei se ele iria “casar” com elas e ele disse-me que sim. Voltei pra casa triste e me agarrei à Diana que aguardava minha volta.

Esta é a história do “Tilico” e nunca mais fui olhar no tal latão de lixo da granja, com medo de achar outro pintinho e que tudo recomeçasse e triste ficasse no trágico final de uma próxima adoção.

 

 

 

Tempos depois fiquei sabendo que a granja não

mais sacrificava os pintainhos machos.

Passou a vendê-los para um aviário que,

com ração especial,

acelerava seus crescimentos

e em seis meses os abatiam

para venda aos supermercados.

 

 

 




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No ar desde 30/07/2008



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