Como já disse em minhas crônicas, às quartas-feiras “fico de castigo” sentado em um banco na pracinha em frente ao supermercado em que minhas esposa e filha mais nova fazem as compras. Logicamente fico exposto aos passantes e apreciando os jardins e pássaros que enfeitam o belo cenário ao qual me integro.

Descendo as escadas, chamou-me a atenção um homem de meia idade, melhor trajado que eu, visivelmente alterado, falando alto palavras ininteligíveis e cumprimentando um por um dos demais “sentados”. Causou-me curiosidade a forma de seu cumprimento e atitude sociável não muito convencional. Ele raspava de leve a palma de sua mão na palma da mão do cumprimentado e depois fechava o punho para que o cumprimentado fizesse o mesmo, provocando um leve e cordial “soco contra soco”. Alguns ficavam meio embaraçados na execução desse ritual. Como ele não lograva entabular um diálogo com os desconhecidos, logo se dirigia a outro banco mais próximo.

Fiquei preparado pois sabia que iria chegar a minha vez de ser por ele abordado. Sai-me muito bem: palmas das mãos raspadas e um imediato “soco contra soco”. Ele gostou da minha “performance” e perguntou-me se poderia sentar-se ao meu lado.

― Claro! Esteja à vontade, o banco é suficientemente espaçoso para sentarem até mais de duas pessoas.

― O que é isso que o senhor tem nas mãos?

― É um vidro com alpiste para dar aos pombos.

― Mas não tem nenhum por perto...

― Se quero alimentá-los, minha obrigação é esperar. Daqui a pouquinho começarão a chegar. É que ainda não me viram.

― Gostei dos seus óculos!

― São para proteger-me do sol. Operei recentemente minha vista direita e o médico recomendou que eu evitasse a claridade. Foi presente de meu neto.

― O senhor tem muitos netos?

― Tenho quatro.

Na sequência de nossa conversa, ficou evidenciado que aquele homem buscava avidamente alguém que o ouvisse no desabafo de um diálogo que queria iniciar.

― Eu ainda não tenho nenhum. Meu primeiro casamento não deu certo e este segundo também não vai indo muito bem.

― O que está acontecendo para estar indo mal?

― Tenho uma enteada que não me deixa em paz e vive me tentando quando a mãe dela sai para trabalhar e eu fico sozinho com ela. Desempregado, evito ficar em casa e vou beber cachaça no bar. Isso está me prejudicando em muito, era um bom repórter, mas fui despedido por causa de fofocas. Me dê algum conselho, me ajude por favor!

― Apesar dos meus cabelos brancos e dos anos vividos, não tenho suficiente vivência para lhe dar conselhos, mas se fosse comigo eu diria claramente à sua enteada que isso não estava certo e se ela continuasse insistindo iria contar pra mãe dela, no caso sua esposa. Isso deveria arrefecer suas insensatas investidas.

Ele ficou com a cabeça baixa, pensativo e disse-me à queima-roupa:

― Hoje à noite vou me matar! Desde cedo estou procurando me despedir de todos que estejam ao meu alcance.

― Qual é seu nome?

― Luiz.

― Luiz, você acha que se matando vai resolver os seus problemas?

― Claro que sim! Vou me livrar dessa vida horrorosa. Desse mundo cheio de injustiças e pecadores impunes!

― Mas você não pode interromper sua missão aqui na terra. Deus nos coloca no mundo para cumprirmos uma tarefa, pagarmos por erros eventualmente cometidos em vidas passadas e ajudar-nos uns aos outros.

― Qual é a sua religião? (indagou-me ele).

Tive que interromper a conversa para derramar alpiste para os pombos que chegavam aos pares. Enquanto aguardava minha resposta ele ficou admirando meus amiguinhos.

― Não tenho religião. Sou seguidor da doutrina espiritualista científica Kardecista.

― E o que é que o senhor me diz dessas pessoas que fazem mal a todo mundo e nada acontece com elas? Por que não são castigadas por Deus?

― Deus não castiga ninguém e nem quer ser temido por nós. ELE espera ser amado e respeitado por todos seus filhos. Essas pessoas más vão desencarnar e voltarão em outras vidas para pagar seus pecados. Poderão vir como deficientes físicos, portadoras de doenças incuráveis ou outras mazelas piores.

― Tem gente que morre e não volta?

― Claro que sim e se voltarem, será apenas por uma curta passagem para quitar alguma pendência que ficou na vida passada. Daí as mortes prematuras de crianças e mal compreendidas pelos leigos. Se você acha que está sofrendo, busque força suficiente em orações para carregar sua cruz até o final da estrada. Lembre-se de Jesus Cristo e não a largue no meio do caminho. Deus só confia as cruzes pesadas aos seus filhos mais fortes e você, certamente, é um deles. Não o decepcione!

Luiz abaixou a cabeça e começou a soluçar com lágrimas roladas sobre seu nariz; consegui explodir o que se acumulava no imo daquele homem. Nesse instante o meu celular tocou. As compras já estavam feitas e eu tinha que dirigir-me ao caixa oito. Coloquei minha mão no ombro do meu amigo e sussurrei ao seu ouvido: “Tenho que ir. Seja forte! Deus conta com você!”

― Foi ELE quem colocou o senhor no meu caminho (murmurou ele).

Ficamos de pé e preparei-me para o ritual da despedida tradicional, mas para surpresa minha, antes que pudesse evitar, Luiz segurou fortemente minha mão direita e beijou-a. Disse: “Obrigado, amigo!”.

― Você não tem que agradecer a mim. Agradeça a ELE (disse-lhe apontando para o azul celeste que cobria a nós ambos).

Caminhamos em silêncio até a porta do supermercado, deu-me um abraço e se foi, desta feita calado, não mais falando alto, deixando-me a impressão de que eu, como instrumento de Deus, havia salvado uma vida! 

ISTO REALMENTE ACONTECEU EM 26/3/2014

E JAMAIS ESQUECEREI!




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