ARTE & POESIA - Plantados no Coração








Quando eu ouvia o galo cantar, o relinchar da minha égua Aurora, eu já pulava da cama para acompanhar
as primeiras atividades da fazenda.
Minha mãe gritava - onde vai, menina? Volta e venha calçar seu sapato e tomar seu café, primeiro.
Eu engolia o leite e saia correndo pois já percebia
minha galinha Pedrita às voltas com seus pintinhos.
Como eram lindos! Eu me assentava próxima a eles
e até sentia apetite por aqueles farelinhos
amarelinhos ao vê-los em total alvoroço para comer.
Bené já providenciava o banquete dos porcos
e eu ia junto.
Com meu olhar de súplica ele sentava-me junto à madeira do chiqueiro e aí era a hora em que me embevecia vendo os porquinhos
(aquele punhado) mamando e sempre disputando um lugar melhor no peito da porquinha.
Dali até o curral era um pulo.
Assistir à ordenha também era um espetáculo para meus olhos.
Mais ainda por saber que daquele leite eram feitos queijos, manteigas e doces.
Para mim, dia de festa era o dia que meus amados bichinhos davam crias.
Ver aqueles cachorrinhos tão pequenos, os gatinhos,
os pintinhos saindo dos ovos.
Meu Deus! Que lembranças belas.
Depois, eu, meu irmão e os empregados da fazenda fazíamos reuniões para batizar os novos moradores
da fazenda.
À tarde eu saia para conferir se todos estavam à
postos para dormir e depois ia ouvir as histórias
que Francisca contava.
Mas...chegava o fatal dia que os pintinhos cresciam,
os porquinhos, as vaquinhas envelheciam e o destino era aquele que arrancava minhas lágrimas.
Matar um porquinho para comer...
eu não conseguia entender aquilo.
E ainda fritá-lo e colocá-lo numa vasilha
embebida de gordura.
O dia que mataram o Jenipapo (o galo)
eu me recusei a jantar.
Cada pedaço que eu via no prato de alguém era um sacrilégio ao meu amor e à lembrança do Jenipapo.
Um dia meu pai apareceu com a máquina de retrato
que revolucionou minhas lembranças e acalentou minhas saudades.
Francisca inventava histórias que eu ouvia
atentamente.
Começei, então, a fotografar meus bichinhos
e a colá-los na parede de meu quarto.
Francisca, numa noite chuvosa, tendo-me ao seu colo
consolando-me pela morte de mais um de meus bichinhos falou-me.
Um dia você os terá todos de volta porque você os
plantou em seu coração.
Você vai crescer e eles crescerão, todos,
dentro de você.
Naquela noite não dormi pensando como é que
caberia tanto bicho no meu coração.
Era vaca, cavalo, cachorro, gato, coelho...porco.
Com certeza isso não daria certo.
Amanheceu o dia e eu corri para interpelar a Francisca.
Chica...como é que vai caber tanto bicho
no meu coração?
Preocupe-se não, filha...Deus dá um jeito pra tudo.
E Ele deu...
Lembro-me de todos e guardo, ainda,
fotografias de alguns.
Mas Deus tem um jeito pra tudo e eles moram,
mesmo, todos, juntinhos, plantadinhos... para sempre,  em meu coração!










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No ar desde 30/07/2008


 


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